domingo, 4 de dezembro de 2011

Bochechas molhadas

Os primeiros raios de sol esmurram a janela para a revista matinal. Vasculham todas as gavetas, todas as frestas, todos os nervos do meu corpo e verificam quão viva eu ainda sou.

Os pequenos fragmentos de pele no chão se tornam poeira escura, que se acovarda nas arestas do quarto como um cão abandonado.

Os lençóis se enrolam, culpados, protegendo cada centímetro da figura frágil que dorme, surda à invasão, encarcerada em pensamentos que julga seus. O mundo morre fora das cortinas cor de marfim.

Acorde.

A luz me esgaça as pálpebras e me grita que é hora de ir. Eu só quero mais alguns minutos. O gato dorme.

E de repente eu sou o sussurro de uma grande promessa.

Uma promessa que nunca há de sumir.

Que nunca há de sumir.

Nunca há de sumir.

Há de sumir.

Sumir.