domingo, 4 de dezembro de 2011

Bochechas molhadas

Os primeiros raios de sol esmurram a janela para a revista matinal. Vasculham todas as gavetas, todas as frestas, todos os nervos do meu corpo e verificam quão viva eu ainda sou.

Os pequenos fragmentos de pele no chão se tornam poeira escura, que se acovarda nas arestas do quarto como um cão abandonado.

Os lençóis se enrolam, culpados, protegendo cada centímetro da figura frágil que dorme, surda à invasão, encarcerada em pensamentos que julga seus. O mundo morre fora das cortinas cor de marfim.

Acorde.

A luz me esgaça as pálpebras e me grita que é hora de ir. Eu só quero mais alguns minutos. O gato dorme.

E de repente eu sou o sussurro de uma grande promessa.

Uma promessa que nunca há de sumir.

Que nunca há de sumir.

Nunca há de sumir.

Há de sumir.

Sumir.

domingo, 20 de novembro de 2011

Horizonte


"havia uma menina sentada
junto a uma janela

ela vestia uma velha camisa de dormir
larga
e tinha cabelos castanhos lisos
longos

tinha uma caixa de plástico vermelha
no colo
e olhava o horizonte cinzento
ao longe

talvez vivesse numa ilha
e talvez brincasse junto ao mar
nas tardes de verão

ela estava sentada
não sei bem se num banquinho de madeira
ou se num rochedo do tamanho do mundo

às vezes
os seus olhos pousavam suavemente
na caixa vermelha
e os seus pequenos dedos
imprimiam na superfície do plástico
antigas histórias
de gente que não mais voltara do mar

a casa era do tamanho
de uma janela que dá para o mundo

e a madeira cheirava a madeira
e alguma coisa nela me dizia
que outrora fora barcos

nenhum entardecer
se assemelhava ao que habitava
aquela janela

e a menina sabia-o
não sei bem como

os seus olhos cinzentos
olhavam o horizonte
com a paciência
de quem olha os horizontes

e por vezes
esticava o pescoço
para ver mais longe

ela descobrira sozinha
o significado da palavra longe

o tempo era
verdadeiramente
algo indistinto

e os cabelos
acariciados pela tempestade
gritavam
aos olhos mais atentos
a palavra eternidade

sempre que abria as mãos
caíam ao chão
punhados de terra
ainda misturada com raízes

e no seu colo pousava
aquela caixa vermelha de plástico liso
como uma mancha de sangue
no branco sujo
da camisa de dormir

de vez em quando
cantava
melodias tristes
que ela ouvira
certamente
da boca dos mortos
que escolheram aquele lugar
para olhar o horizonte

um dia
alguém vindo do mar
dissera-lhe ao ouvido
a palavra infinito
e ela rira

ria sempre
que alguém dizia
infinito

desde então
passava noites inteiras
na sua janela

nenhuma palavra
se lhe ouvia
mas ria-se às vezes
como se riem as crianças

há quem diga
que lhe morrera o mundo
e que perdera o tempo
numa noite de tempestade

outros dizem que aprendeu a falar com os mortos
e que passeia no fundo dos mares

que chama pelo respectivo nome cada estrela
e que tem uma música para cada pôr-do-sol

que guarda na pequena caixa de plástico
todos os sonhos dos homens

eu sei que ela tem uma janela nos olhos

imagino que corra na praia
e que caminhe sem dificuldades
na estrada do horizonte

julgo que é sozinha desde sempre
e que não gosta de andar com guarda-chuva

provavelmente
conhece mesmo o fundo dos mares

e nem sequer me custa acreditar que
se pudesse ver o que esconde
aquela caixa de plástico
ela me pareceria vazia"


[José Rui Teixeira]

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

In Utero

Se arrasta para fora do mar, pingando areia e asfalto por onde passa. Se derrete em ruas e avenidas e se acende em postes de luz.

Cores se esfregam nas paredes e muros. Roma lambe os prédios e tudo o que é antigo vira centro da cidade.

Sobe alto até o céu. Se expande acima do horizonte e faz com que ele se torne teclas de um piano mal afinado que insiste em ser parte da orquestra principal.

A vertigem flutua das entranhas para chutar a porta de escape. Narcisistas se amontoam em frente às estrelas e te forçam a virar a cabeça para conseguir um olhar recíproco.

As trigêmeas, separadas ao nascer, são tão imensas que se olhares para elas, te pegas no chão.

domingo, 3 de abril de 2011

Feche os Olhos

Era uma locomotiva fumegante e avermelhada, ardendo no que o inferno tem de pior. Pingando veneno com força total a frente.

Todo o resto era trilho, fraco e velho, impotente em sua mera existência sobre a pedra, a lama e a grama alta.

E por que, Deus, eu iria querer compartilhar alguma coisa tão ruim quanto isso?

Cala-te e dás a outra face.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Viando

Era estranho que preferisse olhar para o céu estrelado a conversar com alguma outra pessoa naquela festa. É fácil de se perder em pensamentos como os dela. Bastam segundos e ela já sumiu. Tudo o que é possível ver a sua frente é uma casca aeróbia.

Ela te aponta o Cruzeiro do Sul e te conta sobre sua vida de carretel. Ela tem cabelos de serpentina e esquece que hoje é Domingo. Amanhã não trabalha, mas não consegue se divertir quando a música está alta assim. Te pergunta sobre a tua camiseta e some de novo. Ela conta os batimentos cardíacos quando toca os dedos no pulso ou na lateral do pescoço.

De repente se sente sozinha. Se dissipa mais uma vez e começa a perguntar por que insiste em se colocar em situações como aquela. Olha em volta, comenta mentalmente sobre uma pessoa ou duas. Não consegue entender muita coisa do que acontece ali.

Sempre fica confusa durante suas doses de realidade.

domingo, 2 de janeiro de 2011

Coleira no Lixo

Eu acredito que eu sou capaz de conseguir tudo o que eu quero. Pela primeira vez. Sempre me achei uma pessoa enfiada numa cidade que não conseguia entender o jeito que minhas ideias nasceram pra correr, mas agora eu entendo e sei o que fazer.

Acredito que passei os últimos oito meses matando quem eu era e tentando me usar como cobaia para coisas que não eram eu. Nem ao menos eram o que eu gostava, ou já gostei. Era uma tentativa de fazer outra pessoa ser parte de mim.

A Física diz que dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço, então eu comecei a me moldar, já que não podia ser duas. Me desmantelei em uma pessoa fraca e dependente. Uma pessoa que eu não conhecia e que, provavelmente, levaria um soco na boca de quem eu realmente sou.

Não nasci para ser engaiolada, enraizada ou acorrentada. Meus amigos dizem que eu tenho o espírito muito livre para usar uma coleira. Decidi voltar para a estaca zero.

Eu sou uma pessoa em reconstrução, não em restauração. Não quero ser igual ao que eu era.

À esse ano que passou, eu agradeço por todos os momentos, bons e ruins, pois eles me trouxeram até aqui e me fizeram alguém melhor do que um dia eu fui, mas me alegra saber que ano passado nunca mais vai voltar.