sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Flocos de Vidro

Eu não tenho mais a decência de enfileirar os fatos da minha existência de forma racional. Costumo empilhá-los, enumerá-los e fantasiá-los de uma maneira mascarada e difícil de entender.

Crescer é pesado e estressante. Nos meus poucos anos de vida, quando finalmente juntei dezoito deles, resolveram que era hora de me enlouquecer mais uma vez. Era hora de me tirar coisas que eu julgava importante e me dar outras de presente, me forçar a amá-las e a entender. Era hora de me rasgar a carne, me tirar alguns ossos, perfurar alguns órgãos, bem fundo, só para ver se eu me recupero mais rápido agora. Provavelmente vou demorar um pouco mais.

Seria hipócrita da minha parte dizer que eu não consigo superar isso. Dizer que eu nunca vou cicatrizar o que fizeram em mim. Eu vou. Em tempo. Em um longo tempo, talvez.

Dizem que as pessoas vivem solitárias por escolha própria e que os fins justificam os meios. Eu tenho lá minhas dúvidas.

Deixei morrer, deixei partir. Como acontece uma coisa dessas, assim, sem sinal, sem alerta? Estou acostumada a associar perigo com cores vibrantes, com listras e luzes piscantes, - como o animal que sou - mas ele veio sem bula, sem cores vibrantes, sem listras ou luzes que piscam. Ele sim, mas a situação, não.

O Natal chegou. Meu presente se foi. E para quem a gente reclama quando não acredita mais em Papai Noel?

Um comentário:

The Observer disse...

Crescer é estar apto para novas dores.Te entendo. Muitas vezes eu só queria de novo o colo da minha mãe, porque aquilo seria capaz de acalmar qualquer dor, qualquer coração partido.Mas de uns tempos pra cá, tenho dosado a minha culpa, os meus erros e tenho digerido com um pouco de vinho tinto e muitos pensamentos.
Sofrer pode ser opcional.