quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Bastardo

Tem estado ocupada perdendo o controle da vida dela. Perdendo a noção do tempo. Esperando demais. As cores infantis não lhe cabiam mais e as paredes pediam um tom mais sério. Creme. As mãos sofriam por outras duas, longe daqui que, para sempre estarão, não onde os dedos terminam, mas onde a areia encontra o mar.

A decepção tem um gosto salgado, como o oceano. Muralha estratégica e geologicamente colocada entre dois pares de olhos tão distintos, tão anônimos quanto as digitais que aqui lhe escrevem.

Tem estado ocupada perdendo a identidade. Perdendo a noção do real e se misturando na multidão. Se tornando o que seu espírito sempre se recusou a ser: comum. Tão comum a ponto de se tornar Invisível.

O Invisível é comum. Amor, saudade, tristeza, infravermelho. Uma vez sentido, é irresistível voltar. Irresistível como a parede de sorvete, que escorre até secar e se tornar imóvel. Amargo como o Atlântico. Índico. Completamente Pacífico. É uma droga. Veneno. O não-visível te traz de volta para onde tudo começou: no vazio. Pó.

Não quer que olhem pela janela e não vejam mais nada quando ela passa na rua. Não quer ser a sombra que as pessoas que vê usam como uniformes incolores. Não quer mais mudar.

"Tu mudou".

E talvez até seja uma idiota por se deixar controlar. E talvez seja uma hipócrita por deixar partir. Mas certamente é uma perdedora por se deixar desaparecer.

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