quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Bastardo

Tem estado ocupada perdendo o controle da vida dela. Perdendo a noção do tempo. Esperando demais. As cores infantis não lhe cabiam mais e as paredes pediam um tom mais sério. Creme. As mãos sofriam por outras duas, longe daqui que, para sempre estarão, não onde os dedos terminam, mas onde a areia encontra o mar.

A decepção tem um gosto salgado, como o oceano. Muralha estratégica e geologicamente colocada entre dois pares de olhos tão distintos, tão anônimos quanto as digitais que aqui lhe escrevem.

Tem estado ocupada perdendo a identidade. Perdendo a noção do real e se misturando na multidão. Se tornando o que seu espírito sempre se recusou a ser: comum. Tão comum a ponto de se tornar Invisível.

O Invisível é comum. Amor, saudade, tristeza, infravermelho. Uma vez sentido, é irresistível voltar. Irresistível como a parede de sorvete, que escorre até secar e se tornar imóvel. Amargo como o Atlântico. Índico. Completamente Pacífico. É uma droga. Veneno. O não-visível te traz de volta para onde tudo começou: no vazio. Pó.

Não quer que olhem pela janela e não vejam mais nada quando ela passa na rua. Não quer ser a sombra que as pessoas que vê usam como uniformes incolores. Não quer mais mudar.

"Tu mudou".

E talvez até seja uma idiota por se deixar controlar. E talvez seja uma hipócrita por deixar partir. Mas certamente é uma perdedora por se deixar desaparecer.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Fronha


São gritos, são música. Invenção da minha cabeça. É confuso, alto e, provavelmente, nem inteligível é.

Engula mais uma pílula.

E quando pensei que morri, estava apenas acordando outra vez.

sábado, 2 de outubro de 2010

Exposição Solar

Ele queima. Queima como o verão passado. O que é isso? O que é isso no meu peito? Como pode influência ser tão devastadora? Eu não consigo mais entender.

Dei alento a cobrir a pele por inteiro e evitar queimaduras. Eu me esforcei para manter tudo funcionando como o combinado. Mas para ele não foi suficiente. Ele queimou não só minha pele, mas meus músculos, vísceras e até meus ossos transformou em pó. Quanto mais perto, mais fervilhante são seus olhos. E como dói.

Os meus tornam-se constantemente encharcados pela dor da perda. O tempo inteiro. Porque o solo que eu ando agora é árido. Meu coração é deserto. Eu já não valho mais a poeira que esse chão levanta. Eu já não valho mais a cama que eu durmo ou o sanduíche que foi pro lixo. Eu já não valho mais porra nenhuma. Nem mesmo um ombro aquecido ao rubro.

Não tem mais volta. Forever and a day fora da minha vida.

Como me escalda as entranhas dizer isso. As palavras parecem imundas e baratas, como aço comprado a prata. Nem me pertenço mais. Como ser metamórfico e chamuscado, vou caminhando como vim ao mundo, não nua, mas só, como acostumei a estar.

Ele é o menino de ferro incandescente quem eu nunca pude tocar. Embraseado com seu jeito impiedoso de julgar, ofender e injuriar. Crestando e apontando cada erro meu como se possuísse a verdade absoluta dentro de seu peito de aço escovado.

Olhos queimados não vêem bem. Olhos em chamas falam mais do que deviam.

A vida continua, ainda que ele não.