segunda-feira, 5 de julho de 2010

Convés

O Polo Sul congelou completamente e estagnou. Morreu e afundou com todo o resto de gelo sujo que havia sobrado de qualquer bombardeio antigo.

O navio nunca foi forte, era feito de paus e pedras. Não foi feito pra velejar. Possuía inúmeras rachaduras e lacunas que permitiam a entrada de água em abundância. Era só questão de tempo até o navio ser sugado pela água turva e imunda daquele mar de ninguém.

Eu até fugiria num bote, mas nem isso sobrou de toda aquela tralha. Era gelo demais e eu consegui andar por cima da neve consolidada que se formava ali. A vela não ondulava, era dura feito pedra. Água dura em cada fio de tecido preto. Os olhos gélidos conseguiram congelar até a alma, mas ela ainda era minha e estava aqui.

Eu esperei sentada ao lado da bandeira morta. Esperei semanas. Que se arrastaram como meses. O céu era esverdeado, limoso e escorregadio e as nuvens deslizavam de lá para cá. Toda a água que elas poderiam verter estava congelada dentro de mim, em uma escultura fria que tinha a minha forma.

Houve uma manhã de sol forte que me cegou completamente para a bandeira hasteada em uma posição gélida e resistente, mórbida e fria. Eu era fria. Por mais que o sol incinerasse minhas córneas eu não sentia o calor que ele vinha trazer.

Ele demorou, mas conseguiu finalmente derreter todos os cristais em volta de mim. Meu sangue era derretido e queimava como ferro quente. Aquilo realmente doía. Ele não corria. Meu coração ainda era congelado. A mesma carne rija de sempre, os mesmos 12 centímetros de sempre. A primeira pulsação foi como um tapa na cara e um soco no estômago. Não era normal. Ter meu coração batendo era como uma doença em fase terminal. Era de desesperar.

Eu degelei e pude finalmente olhar em volta. Não havia somente um navio afundado ao meu lado, mas vários. Um diferente do outro, mas todos, sem exceção, naufragados e destruídos. Eu olhei para o céu e as nuvens derramaram gotas límpidas na minha face e eu pude ver o sol. Eu pude ver o gelo sólido sob meus pés se tornar águas razas e mornas.

Eu pude ver que eu não sou uma pirata. Eu sou uma andorinha.