sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Beholder

Talvez ela nem se lembre mais de como começar um novo texto. Talvez nem recorde como começar uma conversa ou talvez uma amizade. Com certeza não lembra de como se beija alguém. Na face, nos olhos. Onde estão aqueles olhos?

Os olhos sensíveis às nuances de cor e sentimento, que se arrastavam sob os céus de fim de tarde como ondas em um mar interno e invisível. Os olhos esmagados atrás das pálpebras toda vez que ela achava graça, os gotejantes globos de dizer adeus, que transformavam seus olhos castanhos em um lamaçal denso. Os enjoados olhos de amor e os turvos de ódio - os sentimentos vermelhos. Onde estão todos eles?

Se foram? Secaram? Talvez tenham viajado em busca da diferença. Em busca de espasmos cintilantes mais ténues. Talvez atraídos pelas luzes néon de algum outro lugar. Apaixonaram-se pelo verde das garrafas refletindo ruas encharcadas. Não as mesmas ruas que viam por aqui. Provavelmente estão atrás de pores-do-sol mais extensos do que os que existem no teto de sua cela.

Foram-se por falta de amor ou por falta de amar? Ah, aqueles olhos... Agora que se foram, levaram com eles a menina que eu conheci um dia, e deixaram outra com buracos na face.

Eu te prometi um pôr-do-sol.

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