domingo, 14 de novembro de 2010

Sete Mil

E eu sempre volto, como um cão renunciado.

E ele sempre volta, como ondas lambendo a areia.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Flocos de Vidro

Eu não tenho mais a decência de enfileirar os fatos da minha existência de forma racional. Costumo empilhá-los, enumerá-los e fantasiá-los de uma maneira mascarada e difícil de entender.

Crescer é pesado e estressante. Nos meus poucos anos de vida, quando finalmente juntei dezoito deles, resolveram que era hora de me enlouquecer mais uma vez. Era hora de me tirar coisas que eu julgava importante e me dar outras de presente, me forçar a amá-las e a entender. Era hora de me rasgar a carne, me tirar alguns ossos, perfurar alguns órgãos, bem fundo, só para ver se eu me recupero mais rápido agora. Provavelmente vou demorar um pouco mais.

Seria hipócrita da minha parte dizer que eu não consigo superar isso. Dizer que eu nunca vou cicatrizar o que fizeram em mim. Eu vou. Em tempo. Em um longo tempo, talvez.

Dizem que as pessoas vivem solitárias por escolha própria e que os fins justificam os meios. Eu tenho lá minhas dúvidas.

Deixei morrer, deixei partir. Como acontece uma coisa dessas, assim, sem sinal, sem alerta? Estou acostumada a associar perigo com cores vibrantes, com listras e luzes piscantes, - como o animal que sou - mas ele veio sem bula, sem cores vibrantes, sem listras ou luzes que piscam. Ele sim, mas a situação, não.

O Natal chegou. Meu presente se foi. E para quem a gente reclama quando não acredita mais em Papai Noel?

O enterro

E se foi.
Do mesmo jeito que chegou,
Como se nunca estivesse aqui.

E morreu.
Do mesmo jeito que nasceu,
Como se nunca quisesse que estivesse aqui.

E dói.
Do mesmo jeito que doeu,
Como se fosse difícil aceitar de volta a condição de isolamento.

E arrancou.
Do meu coração a metade,
Só pra não me deixar esquecer que, um dia, aquilo foi tudo o que eu sempre quis.

domingo, 7 de novembro de 2010

Margaridas

O amor iluminado que trazem no peito desfalece, como um corpo dentro de um caixão no meio de um funeral. Morto, mas presente. Uma casca apodrecida do que sobrou de todas as maçãs polidas.

Talvez como as maçãs o amor também tenha um prazo de validade. O que foi o sopro que apagou as velas, uma a uma, piedosamente me cedendo um cálido par delas para que me derretessem os dedos de cera e me trouxessem a dor imensa de um óbito sem causa?

Morre assim, não como flores sem água, mas como flores regadas demais. Talvez a culpa seja minha, por ter tanto medo de me dar, depois tanto medo de deixar se perder.

Construiu meus sonhos como prédios sem janelas. Comidos pelo vento de fora a fora. Um quarto vazio que ecoa minha própria voz sem compreender uma única palavra.

Eu não entendo.

Eu não entendi.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Bastardo

Tem estado ocupada perdendo o controle da vida dela. Perdendo a noção do tempo. Esperando demais. As cores infantis não lhe cabiam mais e as paredes pediam um tom mais sério. Creme. As mãos sofriam por outras duas, longe daqui que, para sempre estarão, não onde os dedos terminam, mas onde a areia encontra o mar.

A decepção tem um gosto salgado, como o oceano. Muralha estratégica e geologicamente colocada entre dois pares de olhos tão distintos, tão anônimos quanto as digitais que aqui lhe escrevem.

Tem estado ocupada perdendo a identidade. Perdendo a noção do real e se misturando na multidão. Se tornando o que seu espírito sempre se recusou a ser: comum. Tão comum a ponto de se tornar Invisível.

O Invisível é comum. Amor, saudade, tristeza, infravermelho. Uma vez sentido, é irresistível voltar. Irresistível como a parede de sorvete, que escorre até secar e se tornar imóvel. Amargo como o Atlântico. Índico. Completamente Pacífico. É uma droga. Veneno. O não-visível te traz de volta para onde tudo começou: no vazio. Pó.

Não quer que olhem pela janela e não vejam mais nada quando ela passa na rua. Não quer ser a sombra que as pessoas que vê usam como uniformes incolores. Não quer mais mudar.

"Tu mudou".

E talvez até seja uma idiota por se deixar controlar. E talvez seja uma hipócrita por deixar partir. Mas certamente é uma perdedora por se deixar desaparecer.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Fronha


São gritos, são música. Invenção da minha cabeça. É confuso, alto e, provavelmente, nem inteligível é.

Engula mais uma pílula.

E quando pensei que morri, estava apenas acordando outra vez.

sábado, 2 de outubro de 2010

Exposição Solar

Ele queima. Queima como o verão passado. O que é isso? O que é isso no meu peito? Como pode influência ser tão devastadora? Eu não consigo mais entender.

Dei alento a cobrir a pele por inteiro e evitar queimaduras. Eu me esforcei para manter tudo funcionando como o combinado. Mas para ele não foi suficiente. Ele queimou não só minha pele, mas meus músculos, vísceras e até meus ossos transformou em pó. Quanto mais perto, mais fervilhante são seus olhos. E como dói.

Os meus tornam-se constantemente encharcados pela dor da perda. O tempo inteiro. Porque o solo que eu ando agora é árido. Meu coração é deserto. Eu já não valho mais a poeira que esse chão levanta. Eu já não valho mais a cama que eu durmo ou o sanduíche que foi pro lixo. Eu já não valho mais porra nenhuma. Nem mesmo um ombro aquecido ao rubro.

Não tem mais volta. Forever and a day fora da minha vida.

Como me escalda as entranhas dizer isso. As palavras parecem imundas e baratas, como aço comprado a prata. Nem me pertenço mais. Como ser metamórfico e chamuscado, vou caminhando como vim ao mundo, não nua, mas só, como acostumei a estar.

Ele é o menino de ferro incandescente quem eu nunca pude tocar. Embraseado com seu jeito impiedoso de julgar, ofender e injuriar. Crestando e apontando cada erro meu como se possuísse a verdade absoluta dentro de seu peito de aço escovado.

Olhos queimados não vêem bem. Olhos em chamas falam mais do que deviam.

A vida continua, ainda que ele não.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Relógio de Sol

Onde está o Sol nessa manhã fria de inverno? O meu Sol. Eu sinto falta do calor que ele traz e dos sorrisos quentes que ele põe no meu rosto. Eu sinto saudade de como ele faz meu sangue correr fácil e derrete qualquer situação embaraçosa.

O meu Sol que me faz fechar os olhos e sentir seu abraço protetor, iluminando cada partícula do meu corpo - que o pertence. Meus pensamentos todos são derretidos, assim como meu coração que verte sentimentos que queimam as entranhas.

Ele se escondeu hoje.

O temporal deixou meus olhos marejados e turvos. O frio me come os ossos e faz os músculos trincarem como taças de cristal. Como podes permitir que sentimento tão cruel me corroa as costelas quando fostes feito iluminado para me aquecer?

Eu espero a noite inteira por ti.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Convés

O Polo Sul congelou completamente e estagnou. Morreu e afundou com todo o resto de gelo sujo que havia sobrado de qualquer bombardeio antigo.

O navio nunca foi forte, era feito de paus e pedras. Não foi feito pra velejar. Possuía inúmeras rachaduras e lacunas que permitiam a entrada de água em abundância. Era só questão de tempo até o navio ser sugado pela água turva e imunda daquele mar de ninguém.

Eu até fugiria num bote, mas nem isso sobrou de toda aquela tralha. Era gelo demais e eu consegui andar por cima da neve consolidada que se formava ali. A vela não ondulava, era dura feito pedra. Água dura em cada fio de tecido preto. Os olhos gélidos conseguiram congelar até a alma, mas ela ainda era minha e estava aqui.

Eu esperei sentada ao lado da bandeira morta. Esperei semanas. Que se arrastaram como meses. O céu era esverdeado, limoso e escorregadio e as nuvens deslizavam de lá para cá. Toda a água que elas poderiam verter estava congelada dentro de mim, em uma escultura fria que tinha a minha forma.

Houve uma manhã de sol forte que me cegou completamente para a bandeira hasteada em uma posição gélida e resistente, mórbida e fria. Eu era fria. Por mais que o sol incinerasse minhas córneas eu não sentia o calor que ele vinha trazer.

Ele demorou, mas conseguiu finalmente derreter todos os cristais em volta de mim. Meu sangue era derretido e queimava como ferro quente. Aquilo realmente doía. Ele não corria. Meu coração ainda era congelado. A mesma carne rija de sempre, os mesmos 12 centímetros de sempre. A primeira pulsação foi como um tapa na cara e um soco no estômago. Não era normal. Ter meu coração batendo era como uma doença em fase terminal. Era de desesperar.

Eu degelei e pude finalmente olhar em volta. Não havia somente um navio afundado ao meu lado, mas vários. Um diferente do outro, mas todos, sem exceção, naufragados e destruídos. Eu olhei para o céu e as nuvens derramaram gotas límpidas na minha face e eu pude ver o sol. Eu pude ver o gelo sólido sob meus pés se tornar águas razas e mornas.

Eu pude ver que eu não sou uma pirata. Eu sou uma andorinha.

domingo, 2 de maio de 2010

Ratos

Ratos por todos os lados.
Ratos devorando gatos.
Ratos roendo roupas e pratos.
São bilhões de ratos,
Borbulhando carrapatos.
Ratos usando seu terno e meus sapatos.
Correndo nas ruas, assinando contratos.
São bem maiores do que ouvi nos boatos.
Toda a cidade me comprova os fatos
De que ratos nem se parecem com ratos,
Mas se parecem comigo quando chove aqui.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

La Danse Macabre

A vida não é breve. Nem breve são os dias. O que é possível de se fazer em 24 horas além de comer, dormir, estudar ou trabalhar, talvez ambos e, dependendo do momento, se divertir um pouco? O que é possível de se fazer em 613.200 horas além de comer, dormir, estudar ou trabalhar, talvez ambos e, dependendo do momento, se divertir um pouco? Isso são 70 anos, meu amigo.

A velha frase com letras amareladas e corroídas pelo tempo diz que se deve aproveitar cada dia como se fosse o último. Como se aproveita o último dia? Quando esse dia chega? Quem sabe não pode contar, ainda que gritasse de sete palmos abaixo da terra, pela falta de ar, de cordas vocais, lábios e consciência, que é a base da vida, na minha opinião.

As pessoas que perdem a lucidez dançam o tempo inteiro dentro de suas mentes, vivendo em uma realidade alternativa que ninguém é capaz de entrar sendo quem realmente é, apenas se desfigurando ou transfigurando em alguma coisa irreal. O tempo é irreal. Então como aproveitar cada dia como se fosse o último, quando o tempo é uma noção errônea da realidade baseada no tempo biológico de um ser humano?

Carpedienar é fazer o que dá na telha e achar o máximo, mas existe uma outra coisa chamada rotina, que é o antônimo de Carpe Diem. Nós todos temos regras a seguir, horários a cumprir e decisões a tomar. Não há frase em latim que possa eliminar todo e qualquer compromisso que tenhamos ao longo da nossa corrida durante as horas de vida.

Eu não estou querendo ser pessimista aqui, nem moralista ou destruidora de sonhos, eu deixo isso para as Igrejas, só estou querendo deixar claro de que não existe o breve, cada minuto é uma eternidade, dependendo das decisões tomadas.

E quanto à lucidez, talvez o essencial seja perder a sanidade enquanto a areia escorre, aos poucos. Relembrar a juventude ou reamá-la? Essa é a diferença entre marchar e dançar para a cova.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Momentos Felizes

Possuem uma aura da cor do ouro. Não é à toa que os idosos os chamam de "tempos dourados".

Boreal

Eu volto para casa, como eu sempre faço. Me sinto cansada, me sinto bem. Costumo ver como as pessoas ainda são boas nesse mundo quando eu ligo a televisão e vejo deslizamentos de terra feito cascatas e terremotos terríveis, que sacodem até as pessoas do outro lado do mundo (mesmo que emocionalmente apenas). As pessoas são bondosas nos ônibus também: elas cedem seus lugares, seguram bolsas e pastas e, incrivelmente, ainda pedem licença.

Eu volto para casa, volto para os meus costumes antigos, reformo-os e transformo-os em coisas boas, tão boas a ponto de dizerem obrigada e com licença, como as pessoas nos ônibus. Eu me sinto melhor de um jeito sintético, melhor que antes, me sinto no trem certo, na direção em que eu deveria estar seguindo o tempo inteiro.

Quando a guerra acabou e finalmente consegui pular o muro, eu desfiz os nós e soltei as algemas, só para me algemar em algo ainda mais pesado, que me exige mais responsabilidade e que me faz crescer mentalmente numa velocidade absurda e maravilhosa.

Eu volto para casa todos os dias. No sentido literal e no abstrato. Acho o caminho certo sete dias por semana, acho o lugar que eu chamo de lar, ainda que com o pensamento longe daqui.

Comecei a construir um navio novo que vai me levar muito mais longe do que minha jangada jamais pensaria em ir.

Comecei a construir um navio novo. E dessa vez para buscar um tesouro maior.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Lunático

- Tu achas que nós somos loucos?
- Achas que somos sãos?
- Não.
- Não.

Chuva de Outono

Continue derramando tua chuva sobre o meu telhado e quem sabe eu possa adormecer para sonhar com coisas boas essa noite.

quinta-feira, 18 de março de 2010

Transporte Coletivo

O fim de tarde era cor de baunilha, como normalmente é. Vanilla Sky. Às vezes há mesclas de amora, mas raramente é iogurtado e cor-de-rosa. As nuvens são normalmente densas e pesadas, arroxeadas e volumosas. Só servem mesmo para fazer volume, porque é pouco provável que chova por volta das 6. Servem para refletir alguns raios de sol de vez em quando, brilhando em alaranjado, sussurando o apocalipse sobre o caos do trânsito de Florianópolis.

É bonito. É comum. A beleza dos fins de tarde esvai e derrete com o calor infernal.

Porque eu penso tanto nisso? Acho que de tanto me repetirem que é insanidade, comecei a absorver um pouco disso e trazer para a minha vida. Quem se importa se é normal ou não? Quem se importa se está nas revistas ou não? Ainda acho que possa valer a pena.

Nunca gostei da palavra 'impossível', especialmente porque me remete a filmes ruins de ação, então não use essa combinação de letras em uma frase importante, não vou te dar ouvidos. Ilumina esse cérebro perturbado e me dê alguma pista do que fazer.

Me traz o Polo Norte, que de tão longe, começa a congelar. Com mais motivos do que o Polo que congela aqui no Sul.

sábado, 13 de março de 2010

Câmeras Digitais

Necessidade de registrar um momento para provar a nós mesmos que algo realmente aconteceu.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Evolução

Macacos transformados em humanos em laboratórios subterrâneos.

Ou seria o contrário?

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Podando Galhos

Às vezes eu tenho medo de que eu sonhe demais. Que eu espere muito de mim mesma. Das pessoas. Do mundo. Coisas que pareciam tão perto, mas não estão. Nem um pouco.

A coisa mais triste que eu percebi ultimamente, é que tudo o que eu tenho é um bolso cheio de planos. Só isso. Já notei algumas raízes minúsculas crescendo embaixo dos meus pés, me prendendo nesse chão que, naturalmente, faz isso. Ele puxa, ele arrasta as pessoas. E elas aceitam, se acostumam e ficam. Para sempre.

Não é frustrante quando tu realizas o quão pequenino tu és, comparado aos teus sonhos? Não dói quando as raízes se enterram cada vez mais na carne e no solo cotidiano? Não é vergonhoso notar que os teus planos, antes tão distantes, começam a se emaranhar entre os tubérculos nas tuas solas, te fazendo querer ficar?

Não quero me tornar uma árvore, igual a tantas quais me recusei a escalar, temendo que a doença 'do fico' fosse contagiosa. Não quero que os meus planos fiquem no alto dos galhos, que se tornaram altos demais para serem alcançados. Não quero que as pessoas tenham medo de pegar a minha doença do 'partindo'. Partiriam os galhos se soubessem o quão bom é não ter raízes. Partiriam as estações e não levariam folha alguma, pois estas seriam constantes planos em aperfeiçoamento, uma reforçada ideia de um sonho. Não quero virar a Figueira. Não quero ser ponto turístico.

Preciso de um machado que corte essas raízes enquanto ainda são pequenas. Antes que as estações mudem e eu me enterre cada vez mais no solo seco. Antes que eu me torne excessivamente alta para que alguém queira se aproximar de mim e escalar meus galhos, buscando saber dos meus planos, já ressecados e amarelecidos, pendurados na ponta deles.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Um Breve Comentário Sobre um Novo Amigo

Ele tem a cor dos limões nos cabelos, como Rudy. Limões sicilianos, do tipo que não se vê muito por aqui. Os olhos são de um azul profundo. Como geleiras. A pele é alva e parece fria, para combinar com o par de olhos congelados. Seu sorriso é feito de cubos de gelo e o corpo esguio faz lembrar estalagmites.

Um garoto de neve protegido por pirâmides.

sábado, 30 de janeiro de 2010

Bolha de Sabão

É quando uma pessoa mistura água da chuva e raios de sol dentro de um copo e assopra as cores do arco-íris em forma de esfera usando um canudo de plástico.

Cristal Líquido

É quando eles pegam um cristal, derretem até ele virar uma bolha e depois assopram todas as cores do mundo dentro dele com um canudo de vento.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

40 Graus

Se foi há um tempo. Há uma eternidade para mim. O que há com as areias do Rio de Janeiro, que sempre fazem com que as pessoas afundem seus pés lá e não mais voltem? O que há com o calor que o inferno mandou para cima, que faz com que os visitantes estrangeiros não se importem em ter seus cérebros fritos enquanto passeiam? E o bronzeado, o que tem naquele sol que faz com que os garotos e garotas reflitam a luz como um espelho cor de óleo queimado? O que há naquelas pessoas para pegarem um bem precioso e o arrastarem para longe?

Eu sinto falta, ainda que só faça um mês. Uma falta grande, como o Cristo Redentor. Uma saudade que cresce como sobem os bondinhos pelo Pão de Açúcar. Foi-se para sempre, ou ainda volta para os ares frios do Sul?

Te espero com um casaco pesado e um sorriso no rosto, o mesmo sorriso de quando falamos de doces caseiros.

Beholder

Talvez ela nem se lembre mais de como começar um novo texto. Talvez nem recorde como começar uma conversa ou talvez uma amizade. Com certeza não lembra de como se beija alguém. Na face, nos olhos. Onde estão aqueles olhos?

Os olhos sensíveis às nuances de cor e sentimento, que se arrastavam sob os céus de fim de tarde como ondas em um mar interno e invisível. Os olhos esmagados atrás das pálpebras toda vez que ela achava graça, os gotejantes globos de dizer adeus, que transformavam seus olhos castanhos em um lamaçal denso. Os enjoados olhos de amor e os turvos de ódio - os sentimentos vermelhos. Onde estão todos eles?

Se foram? Secaram? Talvez tenham viajado em busca da diferença. Em busca de espasmos cintilantes mais ténues. Talvez atraídos pelas luzes néon de algum outro lugar. Apaixonaram-se pelo verde das garrafas refletindo ruas encharcadas. Não as mesmas ruas que viam por aqui. Provavelmente estão atrás de pores-do-sol mais extensos do que os que existem no teto de sua cela.

Foram-se por falta de amor ou por falta de amar? Ah, aqueles olhos... Agora que se foram, levaram com eles a menina que eu conheci um dia, e deixaram outra com buracos na face.

Eu te prometi um pôr-do-sol.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Cinema

É bom ver como as pessoas estão mudando seus hábitos. Eu principalmente, que sempre chego tarde, fui a primeira a me sentar.

Trinta minutos antes.

sábado, 2 de janeiro de 2010

Neve

As nuvens tem deslizado pelo céu, como cubos de gelo sobre um rio congelado.