quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Sobre o (des)Amor

Não é irônico como as pessoas amam e 'desamam' como quem escreve e apaga rabiscos de grafite em uma mesma linha centenas de vezes? O que aconteceu com o conceito do amor nas últimas décadas, enquanto eu nem pensava em me tornar um ser, ou até mesmo depois de introduzida na Esfera Azul? Não me lembro das coisas serem assim quando eu tinha uns seis anos, ou menos.

Minhas bonecas amavam. Meus brinquedos me amavam incondicionalmente e eu amava muito, toda e qualquer coisa. Meus pais se amavam, porque esse era o conceito de família. Na minha cabeça isolada da realidade adulta, o mundo transpirava amor em qualquer ser animado ou inanimado. Eu fantasiava. O tempo desgasta o amor ou o tempo digere o conceito de amar?

A convivência corrosiva dos anos faz com que os sentimentos desbotem e se tornem transparentes, consequentemente invisíveis, afrouxando laços, queimando fotos, perdendo cartas, vídeos, contato. Qual é a nova definição de contato, uma vez que o amor não é mais o mesmo?

O amor ainda que distante se gasta aos poucos, não pela convivência, mas pela espera. Esperar sempre faz nossa cabeça pensar demais. Não fomos feitos para pensar demais. "A primeira resposta é sempre a correta". O que é correto? E se o correto for 'desamar', desgostar, corroer, deixar queimar e se perder da linha reta que segue a vida, mesmo que o caminho ondule em infinitas possibilidades?

Do que se trata o amor desde que pais se separam, pessoas são descartáveis e o mundo nem sequer transpira mais?

sábado, 12 de setembro de 2009

GOES-12

O dia de hoje me fez até parar para pensar que os satélites que a gente manda para o espaço estão em constante queda. A gente chama isso de órbita de uma forma ingênua, sem nem imaginar o pânico que o coitado do pedaço de metal caindo deve estar passando.

As últimas semana flutuaram como ônibus espaciais para mim e acho que nunca me senti tão perto de enlouquecer. Todos os meus conceitos de insanidade foram por água a baixo e eu me vi totalmente prestes a surtar. Ando com insônia ou pelo menos trocando a noite pelo dia, o que é ridiculamente perigoso e desconfortável para uma adolescente que tem seu dia iniciado às seis horas da manhã.

Também ando pensando nas minhas notas escolares. Não é menosprezante avaliar a capacidade mental de alguém por alguns números impressos em uma folha fina como seda? Minha escola não acha. Igualmente os algarismos da minha maldita publicação trimestral vinda da escola, que diz que eu não consigo alcançar a média exigida pelas pessoas que julgam que eu posso ser um sete e meio.

Enquanto eu inspiro, o oxigênio aumenta no meu cérebro, juntamente com as perguntas, em uma soma incalculável. Incalculável pelo menos para mim, que ultimamente ando em órbita e, que como o satélite, as pessoas não tem conhecimento de, ou simplesmente ignoram, o pavor que isso causa em quem cai. Talvez seja perda de equilíbrio. Talvez seja queda livre.

Julgando que caminhar é uma constante perda de equilíbrio que nos tira do lugar, então eu prefiro estar perdendo a 'igualdade das forças de dois corpos que obram um contra o outro', como diz a mecânica.

A questão é que tudo ao nosso redor é um confinamento, porque ainda que estejamos nos sentindo livres, ainda estamos presos aos malditos
9,8 m/s² da gravidade, e ainda que a mente esteja solta, o cérebro está preso dentro do crânio.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Fale Sobre o Nada

É incrível como as vezes o nada é a única coisa por aqui. O nada de estudo, nada de comida, nada de fome, nada de sono, nada de felicidade ou de tristeza, o nada de sentimento, o nada de nada.

E por ser nada talvez o nada seja tudo. Aquela pessoa que não tem nada a ver contigo, mas que tu gostas de forma incomensurável. Ou aquele dia que não tinha nada de especial, mas que te fazia um bem inacreditável. Ou a bebida que te deixou doido mesmo com nada de álcool. O nada é ridículo.

O nada também serve para negar um sentimento explícito, como quando tu estás visivelmente abalado e se te perguntam qual é o problema, tu respondes 'nada', quase que automaticamente, tentando despistar qualquer sinal de fraqueza gritante que o teu olhar condene.

O nada não é o vazio. O nada não sobra, não cabe, não delimita, nem demonstra. O nada, nada mais é do que a junção de tudo que se esconde, em uma única e curta palavra que nasce e morre em quatro letras que te privam do que pode ser.

O nada não é a escuridão, uma vez que o preto é a ausência das cores, nem o branco, que abrange todas as colorações possíveis. O nada é uma escala de cinza. E por ser cinza, é melancólico. O cinza da cidade durante a chuva ou neblina, das cinzas pós chama, a cor do que era e deixou de ser. O nada é desbotado.

O nada é nulo, é a insignificância de alguma coisa diante de outra. O nada é, nada mais, nada menos, que eu e tu junto com aquilo que nós carregávamos no peito. É a nossa história e a importância dela para os livros de história. Ou de ciências. É o lugar nenhum para onde caminhamos por tanto tempo e onde chegamos depois de tentar tanto.

O nada é nada, comparado ao nada que tudo isso se tornou.