segunda-feira, 4 de maio de 2009

EGO

Meu nome é Juliana e eu tenho 16 anos. Eu nasci em uma cidade relativamente pequena e cresci nas proximidades da mesma, no que se pode chamar de interior. Minha rua não tinha mais do que 30 casas e a estrada era de chão. Fui criada, basicamente, pela minha avó, porque meus pais trabalhavam muito, saíam cedo e voltavam tarde. Eu tinha um amigo, meu primo, que era praticamente um irmão e acho que não existe uma única memória infantil em que ele não apareça.

Quando eu era pequena, eu lembro de olhar para as estrelas e, depois de tentar contá-las inúmeras vezes, dizer que eu queria ser astronauta, ou astróloga, e inventar uma conta que pudesse dizer com precisão quantas estrelas existem no céu. Um dia me disseram que não se pode contar as estrelas e tudo o que eu ganhei foram duas verrugas por apontá-las: uma no dedo médio da mão esquerda e outra bem no meio da testa.

Lembro de andar de pé no chão, de deitar na grama, de brincar no balanço, de querer uma casa na árvore e tentar, várias vezes, montar um clubinho ou fazer um piquenique no quintal. Nunca ganhei a casa na árvore.

Aos oito anos, recordo de ir ao dentista por problemas no nascimento dos dentes e precisei fazer uma cirurgia para permitir que os incisivos crescessem. Eles cresceram (e eram enormes).
Mais ou menos nessa mesma época, eu matei Papai Noel e o Coelhinho da Páscoa, tanta mudança significante em um meio tempo de oito meses.

A partir daí, não me lembro de muita coisa até chegar a uns 12 anos. Meu primeiro beijo de verdade foi com essa idade e, talvez por trauma, não consigo recordar de detalhes.

Aos 14, viajei para o Rio. Aos 15 me apaixonei por um garoto que eu nunca cheguei a conhecer pessoalmente. E hoje, aos 16, olho para trás e vejo quantas memórias eu tenho em tão pouco tempo. Percebo o quanto eu mudei e, ao mesmo tempo, como continuo tão igual. Em 16 anos, eu fiz amigos (que sumiram). Notei que eu tenho os mesmo amigos que tinha aos cinco, aos seis, aos sete, aos 12, aos 14. E que são, provavelmente, os mesmos que eu vou ter aos 20 e aos 64: o menino que brincava comigo de índio e a irmã mais velha que me fazia dançar músicas do momento. Eles sim são parte de mim, eles sim são minhas memórias vivas e as únicas que eu não sinto falta, porque são reais.

Acho que nós deveríamos aprender a nos amar mais, e logo, antes que nosso corações virem pedaços de metal. Que deveríamos aprender a usar melhor nosso cérebro, perceber que as pessoas são seres que precisam ser precisados, que não são bens ou propriedades e que um anel em um dedo não vai fazer com que essa condição desapareça.

Demorei muito tempo para perceber que a palavra 'paz' significa algo realmente importante e que 'mente' significa mais do que 'pensar'. Demorei minha vida inteira para perceber que ninguém é melhor do que eu...


... e que eu não sou melhor do que ninguém.