terça-feira, 29 de dezembro de 2009

All The Small Things

Não é incrível olhar para as estrelas e saber que estamos olhando para milhares de pontos de luz morta?

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Estrada Esburacada

Nunca existiram tantas mudanças repentinas por aqui. O carro que levava todas as pessoas ao redor parecia andar por um asfalto extremamente perfeito, sem nem ao menos pedras. Era o mesmo carro em que eu estava, mas eu era arremessada de um lado para outro, brutalmente. Não me lembro de uma estrada tão sinuosa ou de um céu tão claro ao longo desses 17 mil quilômetros rodados.

A indiferença vinha costurando outra vez. Indiferença absurda a tudo e todos. Adiante, o sol brilhava no meio do nada. Nada de planos que agora eu tenho. Uma amiga me contou, outro dia, que pegou uma neblina intensa e que não sabia o que a curva seguinte a reservava. Eu então listei desejos distantes, mantendo minhas mãos no volante, quando na verdade não sei nem dirigir. É como se o mapa tivesse voado janela afora e o acelerador estivesse colado ao chão do carro, me impossibilitando de decidir qualquer coisa, principalmente a direção ou o destino.

Nunca gostei de regras, nunca fui fã de recomendações, mas agora que não as tenho, percebo quão difícil é pavimentar a própria estrada para que o fluxo flua e tu consigas pegar algum rumo preciso.

Os postos de gasolina estão fechados, não que eu precise de combustível, mas isso me impede de pedir qualquer informação. Perdi os sentimentos quando sentei no banco do condutor. Mais valia ter pego um trem.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Estratégia de Combate

Os soldados se reuniram mais uma vez. Eram dezessete, depois que mais um se juntou ao exército depois da primeira quinzena do mês. Ainda eram poucos e exaustos, quase se arrastando novamente. A batalha não estava ganha ainda. Faltavam mais uns vários metros e ainda mais três fortes a derrubar.

Não chovia, mas o calor era exaustivo. Misturado com a poeira laranja que levantava do chão e o céu azul acinzentado, a silhueta da débil multidão aparecia marchando lentamente. Muitos sem armas, outros sem munição, quase todos sem os dedos, impossibilitados de escrever uma carta às suas famílias apenas para avisar que estavam bem.

Os outros exércitos pareciam tão poderosos.

Ouviu-se um grito que ditava o compasso e a direção a seguir. Ainda que olhassem em volta, ninguém ali poderia dizer de onde exatamente a voz vinha, apenas ouviam. Obedeciam. Aos que caíssem, a voz esbravejava para que se pusessem de pé e caminhassem, aos que sentassem, ordenava que crescessem e agissem como soldados de verdade, aos que chorassem, dizia que militar sob sua regência não tinha direito a lágrimas. Todos eram deviam chegar lá, não havia volta, não havia escolha.

Um dos soldados levantou os braços aos céus e implorou à voz que o deixasse ali para morrer, pois as pernas não conseguiam mais responder à sua necessidade de caminhar. Os pés com bolhas, as mãos sem dedos. Os olhos vertiam lágrimas escuras devido à sujeira em seu rosto. Um silêncio deitou-se sobre o campo vazio de batalha e assim ficou por alguns segundos. Subtamente a voz que mantinha tudo em movimento bradou de uma maneira que fez os soldados todos virem ao chão violentamente: para mim, que olho daqui, todo o seu trajeto é apenas um passo que eu preciso dar, ainda assim eu os protejo durante todo o caminho, porque eu preciso que alguém veja também, o que daqui eu já posso ver.



'O sol nunca brilha em portas fechadas, marujo'

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Adeus, Au Revoir, Arrivederci e Farewell.

É o último. O último de muitos, muitos mesmo. Não compareci em metade deles, talvez um pouco menos. As paredes me viram crescer, me viram mudar, me tornar mais estranha e parecida com os outros a cada novo. É sempre novo.

A mochila nem cabe mais como adereço, uma vez que a pasta substituiu as alças, que minhas costas fizeram questão de recusar. Os livros se dividiram em vários, pequeninos. Ah, os pequeninos... Embora me assustem não creio que possa ter havido uma época tão fantasiosa na minha cabeça. Em todas as cabeças, de todas as minhas múltiplas personalidades ao longo dos anos.

Acabou assim: acabando lentamente a cada segundo que se arrastou. Eu me arrastei. Para a colorida, ainda que envelhecida, linha de chegada, que há muito espera por mim. E eu finalmente cheguei.

Terminou. E a Ilha nunca foi tão grande assim.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Sobre o (des)Amor

Não é irônico como as pessoas amam e 'desamam' como quem escreve e apaga rabiscos de grafite em uma mesma linha centenas de vezes? O que aconteceu com o conceito do amor nas últimas décadas, enquanto eu nem pensava em me tornar um ser, ou até mesmo depois de introduzida na Esfera Azul? Não me lembro das coisas serem assim quando eu tinha uns seis anos, ou menos.

Minhas bonecas amavam. Meus brinquedos me amavam incondicionalmente e eu amava muito, toda e qualquer coisa. Meus pais se amavam, porque esse era o conceito de família. Na minha cabeça isolada da realidade adulta, o mundo transpirava amor em qualquer ser animado ou inanimado. Eu fantasiava. O tempo desgasta o amor ou o tempo digere o conceito de amar?

A convivência corrosiva dos anos faz com que os sentimentos desbotem e se tornem transparentes, consequentemente invisíveis, afrouxando laços, queimando fotos, perdendo cartas, vídeos, contato. Qual é a nova definição de contato, uma vez que o amor não é mais o mesmo?

O amor ainda que distante se gasta aos poucos, não pela convivência, mas pela espera. Esperar sempre faz nossa cabeça pensar demais. Não fomos feitos para pensar demais. "A primeira resposta é sempre a correta". O que é correto? E se o correto for 'desamar', desgostar, corroer, deixar queimar e se perder da linha reta que segue a vida, mesmo que o caminho ondule em infinitas possibilidades?

Do que se trata o amor desde que pais se separam, pessoas são descartáveis e o mundo nem sequer transpira mais?

sábado, 12 de setembro de 2009

GOES-12

O dia de hoje me fez até parar para pensar que os satélites que a gente manda para o espaço estão em constante queda. A gente chama isso de órbita de uma forma ingênua, sem nem imaginar o pânico que o coitado do pedaço de metal caindo deve estar passando.

As últimas semana flutuaram como ônibus espaciais para mim e acho que nunca me senti tão perto de enlouquecer. Todos os meus conceitos de insanidade foram por água a baixo e eu me vi totalmente prestes a surtar. Ando com insônia ou pelo menos trocando a noite pelo dia, o que é ridiculamente perigoso e desconfortável para uma adolescente que tem seu dia iniciado às seis horas da manhã.

Também ando pensando nas minhas notas escolares. Não é menosprezante avaliar a capacidade mental de alguém por alguns números impressos em uma folha fina como seda? Minha escola não acha. Igualmente os algarismos da minha maldita publicação trimestral vinda da escola, que diz que eu não consigo alcançar a média exigida pelas pessoas que julgam que eu posso ser um sete e meio.

Enquanto eu inspiro, o oxigênio aumenta no meu cérebro, juntamente com as perguntas, em uma soma incalculável. Incalculável pelo menos para mim, que ultimamente ando em órbita e, que como o satélite, as pessoas não tem conhecimento de, ou simplesmente ignoram, o pavor que isso causa em quem cai. Talvez seja perda de equilíbrio. Talvez seja queda livre.

Julgando que caminhar é uma constante perda de equilíbrio que nos tira do lugar, então eu prefiro estar perdendo a 'igualdade das forças de dois corpos que obram um contra o outro', como diz a mecânica.

A questão é que tudo ao nosso redor é um confinamento, porque ainda que estejamos nos sentindo livres, ainda estamos presos aos malditos
9,8 m/s² da gravidade, e ainda que a mente esteja solta, o cérebro está preso dentro do crânio.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Fale Sobre o Nada

É incrível como as vezes o nada é a única coisa por aqui. O nada de estudo, nada de comida, nada de fome, nada de sono, nada de felicidade ou de tristeza, o nada de sentimento, o nada de nada.

E por ser nada talvez o nada seja tudo. Aquela pessoa que não tem nada a ver contigo, mas que tu gostas de forma incomensurável. Ou aquele dia que não tinha nada de especial, mas que te fazia um bem inacreditável. Ou a bebida que te deixou doido mesmo com nada de álcool. O nada é ridículo.

O nada também serve para negar um sentimento explícito, como quando tu estás visivelmente abalado e se te perguntam qual é o problema, tu respondes 'nada', quase que automaticamente, tentando despistar qualquer sinal de fraqueza gritante que o teu olhar condene.

O nada não é o vazio. O nada não sobra, não cabe, não delimita, nem demonstra. O nada, nada mais é do que a junção de tudo que se esconde, em uma única e curta palavra que nasce e morre em quatro letras que te privam do que pode ser.

O nada não é a escuridão, uma vez que o preto é a ausência das cores, nem o branco, que abrange todas as colorações possíveis. O nada é uma escala de cinza. E por ser cinza, é melancólico. O cinza da cidade durante a chuva ou neblina, das cinzas pós chama, a cor do que era e deixou de ser. O nada é desbotado.

O nada é nulo, é a insignificância de alguma coisa diante de outra. O nada é, nada mais, nada menos, que eu e tu junto com aquilo que nós carregávamos no peito. É a nossa história e a importância dela para os livros de história. Ou de ciências. É o lugar nenhum para onde caminhamos por tanto tempo e onde chegamos depois de tentar tanto.

O nada é nada, comparado ao nada que tudo isso se tornou.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Doentio

Ele tem os olhos sonolentos de um assassino e o sorriso pretensioso de um psicopata.
Ele é um destruidor de corações. Ele é um centro de abate.
Ele vai te deixar para baixo, te fazer chorar e desaparecer, como tudo o que ele disse sentir.
Ele é um jogador, um enganador.
Ele é um palhaço.
Ele é como uma lâmpada fluorescente que atrai insetos. Ele é um campo magnético.
Ele é engraçado no início mas, como uma piada velha, se torna comum e sem graça.
Ops, tarde demais.
Melhor correr enquanto pode. Nessas ruas tortuosas... nunca se sabe.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Conversa Intramental 4

- Como se fosse grande coisa.
- O quê?
- Ah, tu sabe, essas coisas...
- Não sei, vei, que coisas?
- Nada, nada.
- Fala.
- Não é nada, sério.
- Vai te fuder então.
- Vai tu, vei! Ignorante pra caramba!
- Eu não, tu que começou, só pedi pra ti contar!
- Mas não era nada.
- Então foda-se.
- Foda-se, então.
- E tu nem é uma pirata de verdade.
- Tá, agora foi longe demais, vei.
- Não é mesmo.
- Ridícula.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Praça de Alimentação

Algumas pessoas cheiram bem, outras nem tanto. Umas são religiosas, outras nem acreditam em Deus. Acho incrível como elas deixam detalhes de suas vidas e rotinas transparecerem, mesmo que nós nem as conheçamos. É como quando sentimos que nossos ossos querem estralar, mesmo sem ver isso.

É tudo sobre estilo de vida. Não sei qual é o meu. Também não acho que eu precise de um.

Ocupei uma mesa de seis lugares para sentar sozinha e fiquei pensando em como o mundo é maravilhoso ao som de Iron&Wine. As pessoas parecem puras e o parque de diversões funciona como se fosse em câmera lenta, me fazendo até esquecer do lucro por trás de uns sorrisos em uma volta ou duas nos brinquedos. Sorriso que custa um pouco mais do que meus 16 anos desempregados podem pagar.

Eu me sinto bem. Não encontro nem rastro do sentimento que me derrubou na segunda-feira, talvez só o cansaço. Sem medo das pessoas. Elas não parecem assustadas também. Talvez isso seja crescer, poder focar o caleidoscópio.

Ou talvez eu seja só uma mente amadurecendo mais rápido do que meu corpo pode envelhecer.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Mas Quando Tu Falas em Destruição

"Vida de caleidoscópio: infinitas maneiras diferentes de ver a mesma coisa". Acordei com essa frase na cabeça às 7:15h da manhã. Atrasada de novo. O dia estava edificantemente bonito e era quase impossível ficar de mal humor. Quase.

Ando em uma fase bem estranha, meio revoltada com as coisas, querendo mudar tudo e agora. Para ser honesta, eu possivelmente só estou cansada. Não diria que a roda gigante, que é isso tudo, tá na parte baixa, mas também não posso dizer que está na alta, até porque não consigo enxergar, nem fazer ideia do que vem pela frente. Eu só estou indo. Barquinhos de papel.

- Vês a face da revolução quando olhas para mim?
- Não.
- Bem, deverias.

domingo, 5 de julho de 2009

Me? A Nice Guy?

"I used to be such a sweet, sweet thing
'Til they got a hold of me.
I opened doors for little old ladies,
I helped the blind to see.
I got no friends 'cause they read the papers.
They can't be seen with me and I'm gettin' real shot down
And I'm feeling mean.

No more Mister Nice Guy,
No more Mister Clean,
No more Mister Nice Guy,
They say he's sick, he's obscene.

I got no friends 'cause they read the papers.
They can't be seen with me and I'm gettin' real shot down
And I'm feeling mean.

No more Mister Nice Guy,
No more Mister Clean,
No more Mister Nice Guy,
They say he's sick, he's obscene.

My dog bit me on the leg today.
My cat clawed my eyes.
Ma's been thrown out of the social circle,
And dad has to hide.
I went to church incognito.
When everybody rose, the Reverend Smith,
He recognized me,
And punched me in the nose.
No more Mister Nice Guy,
No more Mister Clean,
No more Mister Nice Guy,
They say he's sick, he's obscene."

[Canta isso no karaokê, mothafucker!]

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Ossos de Pirata

- Não, tu tá errada, Juliana!
- Poisé, tenho ouvido isso bastante ultimamente.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

terça-feira, 16 de junho de 2009

WTF

Conheci dois caras uma certa vez. Um deles era um maníaco psicopata, cheio dos homicídios nas costas. Por alguma razão, ele gostava de ruivas, muito mesmo, ao ponto de não querer que elas pertencessem a ninguém. O outro cara tinha um coelho gigante, é meio difícil de acreditar, mas o coelho era tão grande, mas tão grande, que dava pra montar em cima dele igual a um cavalo. Ele tinha uma cela azul e se chamava Hooligans. Por que? Eu não faço ideia.

O psicopata, apesar da vida conturbada que levava, não mostrava remorso algum e era super otimista sobre as coisas, carregava o símbolo da paz no peito e se alguém perguntasse qualquer coisa que fosse sobre os crimes que ele havia cometido, falava sem nenhum problema e contava nos mínimos detalhes para quem quisesse ouvir. Era macabro e, com a sinceridade e naturalidade que ele relatava seus feitos, era quase impossível acreditar que eram reais (embora fossem). Quando perguntavam o motivo da carnificina toda, ele respondia que 'liberdade é fazer o que se gosta e felicidade é gostar do que se faz', eu demorei para entender, mas hoje eu vejo que o cara estava completamente doido, e certo.

O cara do coelho não era muito de papo, e as poucas coisas que ele falava tinham o bendito do Hooligans no meio. Sempre montado no bicho, com cara de quem não quer nada, olhar distante e as mãos o tempo todo acariciavam as orelhas do coelhão. O coelho era outro perdido na vida, sempre carregando o homem nas costas, com a mesma cara de quem não quer nada, o mesmo olhar distante e mexendo os bigodes toda vez que o cara lhe acariciava as orelhas. Não parecia feliz. Ambos, para ser sincera.

Os dois caras, o psicopata e o cara do coelho, moravam no mesmo bairro, apenas algumas casas os separavam, mas só se viam quando o cara do coelho saía para o trabalho montado no Hooligans. O psicopata passava os dias espiando pela janela, esperando que alguma ruiva passasse. Sozinhos em seus mundinhos, em suas cabeças engaioladas.

'As ideias são pássaros, meu filho, se você manter a portinha da gaiola aberta, elas sempre voltarão refrescadas'.

domingo, 14 de junho de 2009

Expectations

Eu voltei, por completo, finalmente, andava cansada de ser só metade. Tive quatro dias pra pensar na vida, o que fez bastante diferença por aqui, e conseguir colocar as ideias no lugar. Fazia tempo que eu não sentia a mente vazia das preocupações e o peito desamarrado das angústias.

Vim vendo de cima. O verde aveludado da grama contrastando com o cinza quente do asfalto e o céu azulzinho de outono era bonito demais pra ser verdade. Sombras de trens e carros se misturavam com as dos ônibus e pontes quase que suspensas. O sol tava indo embora, eu também.

A cabeça recapitulava tudo que tinha acontecido e o que não tinha também, foi legal e completo apesar de tudo. Conheci pessoas legais, umas mais antigas, outras novinhas em folha. Deu pra tornar as coisas mais pessoais (e isso é muito bom, faz a gente sentir o sangue correndo).

Hamburguer com ovo, duas cervejas fracas, chiclete de laranja, um boneco zumbi, DVD esquecido, pizza de morango com chocolate, vinho, jogo do Brasil, osso congelado, nariz escorrendo, spray de cabelo, cachecol, poltrona 16 e 02, cadarços coloridos, cachorro nervoso, moinho gigante, pôr-do-sol, sem créditos, quinta categoria, sagu com iogurte, suco de laranja com melão, Tieta, cólica, japonês, anão, sabonete de hotel, Shangai Kiss, pastilha, perfume com cheiro de bala, wayfarer, peixes, criança estranha, dinossauro de plástico, chave minúscula, campos de milho, 306.

Acordei em quatro dias. Espero não dormir outra vez por tanto tempo, se perde muito com os olhos fechados sem ao menos se perceber. Voltei a me sentir uma pecinha recém tirada da caixa de quebra-cabeças, aquelas que encaixam perfeitamente. Logo eu, que sempre fui a peça roída e amassada que não fazia par com coisa alguma, cheia dos cantos errados, que não deveriam existir, encaixei certinho no mundo e poderia ficar presa ali pra sempre, num momento ensolarado e pintado de laranja, que durou menos de uma hora, enquanto as pessoas dormiam, não como eu costumava dormir, mas do jeito convencional.

Tu vais ver, tais no topo do mundo outra vez.



[?]

segunda-feira, 4 de maio de 2009

EGO

Meu nome é Juliana e eu tenho 16 anos. Eu nasci em uma cidade relativamente pequena e cresci nas proximidades da mesma, no que se pode chamar de interior. Minha rua não tinha mais do que 30 casas e a estrada era de chão. Fui criada, basicamente, pela minha avó, porque meus pais trabalhavam muito, saíam cedo e voltavam tarde. Eu tinha um amigo, meu primo, que era praticamente um irmão e acho que não existe uma única memória infantil em que ele não apareça.

Quando eu era pequena, eu lembro de olhar para as estrelas e, depois de tentar contá-las inúmeras vezes, dizer que eu queria ser astronauta, ou astróloga, e inventar uma conta que pudesse dizer com precisão quantas estrelas existem no céu. Um dia me disseram que não se pode contar as estrelas e tudo o que eu ganhei foram duas verrugas por apontá-las: uma no dedo médio da mão esquerda e outra bem no meio da testa.

Lembro de andar de pé no chão, de deitar na grama, de brincar no balanço, de querer uma casa na árvore e tentar, várias vezes, montar um clubinho ou fazer um piquenique no quintal. Nunca ganhei a casa na árvore.

Aos oito anos, recordo de ir ao dentista por problemas no nascimento dos dentes e precisei fazer uma cirurgia para permitir que os incisivos crescessem. Eles cresceram (e eram enormes).
Mais ou menos nessa mesma época, eu matei Papai Noel e o Coelhinho da Páscoa, tanta mudança significante em um meio tempo de oito meses.

A partir daí, não me lembro de muita coisa até chegar a uns 12 anos. Meu primeiro beijo de verdade foi com essa idade e, talvez por trauma, não consigo recordar de detalhes.

Aos 14, viajei para o Rio. Aos 15 me apaixonei por um garoto que eu nunca cheguei a conhecer pessoalmente. E hoje, aos 16, olho para trás e vejo quantas memórias eu tenho em tão pouco tempo. Percebo o quanto eu mudei e, ao mesmo tempo, como continuo tão igual. Em 16 anos, eu fiz amigos (que sumiram). Notei que eu tenho os mesmo amigos que tinha aos cinco, aos seis, aos sete, aos 12, aos 14. E que são, provavelmente, os mesmos que eu vou ter aos 20 e aos 64: o menino que brincava comigo de índio e a irmã mais velha que me fazia dançar músicas do momento. Eles sim são parte de mim, eles sim são minhas memórias vivas e as únicas que eu não sinto falta, porque são reais.

Acho que nós deveríamos aprender a nos amar mais, e logo, antes que nosso corações virem pedaços de metal. Que deveríamos aprender a usar melhor nosso cérebro, perceber que as pessoas são seres que precisam ser precisados, que não são bens ou propriedades e que um anel em um dedo não vai fazer com que essa condição desapareça.

Demorei muito tempo para perceber que a palavra 'paz' significa algo realmente importante e que 'mente' significa mais do que 'pensar'. Demorei minha vida inteira para perceber que ninguém é melhor do que eu...


... e que eu não sou melhor do que ninguém.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Um Touro Cego

Que vai bater a cabeça na cerca para sempre e nunca entender o por quê.

segunda-feira, 16 de março de 2009

Os Sinos Dobram

Faz quase um ano. Nem parece. Toda a dor, a angústia, o ponteiro travado no mesmo segundo, que fazia coisas incontáveis acontecerem até que resolvesse se mover, os "pedaços de bolo" que se foram, as luzes que se apagaram, os amores que se esvaíram, as amizades que se perderam. Tudo se foi.

Como o vento que arrasta os grãos de areia, um a um, para o mar, eu me arrastei até chegar onde eu estou agora. Com um ponto de vista mais maduro, mais sensato, mais realista, que me fez entender o porque de as aves migrarem quando o inverno chega. E eu estava certa quando falei de instinto.

Nosso instinto natural é fugir do que nos machuca, do que nos possa causar problemas. E apesar de constantemente fugir deles, eles continuavam a me perseguir, como latas amarradas a um carro de recém-casados.

É legal poder cortar as cordas, mesmo entendendo que pedaços vão ficar atados aos pulsos para que eu nunca me esqueça de onde foi que eu vim.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Pássaros de Papel

Folhas de papel dobradas sobre a mesa. Dobradas ao meio. Um lápis bem apontado na cor vermelha esboça um círculo no branco, bem no meio de cada uma das folhas. Dentro do círculo, um outro, alongado, e uma cruz que corta ambos. Logo o desenho toma forma. Alguns traços, alguns cortes.

Penas de cartolina, milhares, coladas com fita adesiva. Um monte de papel dobrado, colado junto, montava uma coisa que só era entendida se olhada de perto. Um fio nas costas os prendiam ao teto, suspensos no centro da sala branca como o papel de que eram feitos. Piados e olhos piscando. Pássaros afinal! Despercebidos a quem atravesse a sala olhando para o chão.

Asas batendo com tanta ânsia de sair, bicos que abrem e fecham, olhos brilhantes como as estrelas do céu, cheios de vontade de viver, vontade que era expressa nos cantos, em um coro. Voariam janela a fora...

...Se não fossem apenas papel amassado.

Mentalidade

Ela olha pela janela. O calor é exaustivo. Não saiu de casa hoje, nem tem saído nos últimos dias, prefere ficar em casa, onde tem sombra. O sol sumiu no horizonte há muito, algumas estrelas no céu entre nuvens bordô, flutuando no negro.

Uma brisa leve sopra em seu rosto e, como se empurrasse seus músculos da face, lhe abre um pequeno sorriso, quase imperceptível. As pessoas caminham lá embaixo, bem poucas, já é tarde. Parecem tão pequenas, mas tudo é tão perfeito quando apenas se observa de longe, sem fazer sons.

O prédio é tão alto, que o único barulho que se escuta é a televisão, recém desligada, estalando. Quando os ouvidos se encontram fora da janela, o som se abafa, e os pensamentos caem por metros até atingirem a calçada, engalharem em fios de eletricidade ou invadirem algumas mentes desconhecidas. Podem sair da torre, pegar um ar fresco.

Na realidade, ela queria estar lá embaixo com as outras pessoas. Porque, na verdade, ela queria estar perto do mar. Porque, sinceramente, ela não queria seus pensamentos e idéias voando por aí, caindo janela a baixo, ocupando outras cabeças. Honestamente, ela queria jogá-los no oceano (é onde a alma encontra o corpo).

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Coversa Intramental 3

- Oi, senhor Vazio! Como o senhor se sente hoje?
- Vazio. E aí, Juli?
- A mesma coisa. Tem lido o jornal?
- Na verdade, tenho assistido bastante televisão. E tu?
- TV também. O jornal anda dando muito trabalho, andam se expressando de forma confusa.
- Concordo. Já pensou em usar óculos?
- Eu USO óculos, seu Vazio. Ó, aqui, ó!
- É mesmo. Nem ligo.
- Credo.
- Credo.
- Pára de me imitar!
- Pára de me imitar!
- O senhor é um idiota. Odeio quando tu vens pra cá! Odeio mesmo, o senhor sempre me irrita!
- Tá!
- Ótimo!
- Tchau.
- Tchau.

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Guerra Santa

As portas da Igreja fechadas,
Os fiéis de pés no chão
Sacudiam as grades como macacos em uma jaula,
Em uma inútil tentativa de redenção.

As palavras que não eram gemidos,
Eram gritos de fúria e consagração.
Havia mais piedade nas lâminas das espadas,
Que nos olhos de cada cristão.

Diante do sangue que escorria
De cada veia que se rompeu,
Até os santos se tornaram demônios,
Até do amor de Deus se esqueceu.

Por uma causa honrosa,
Tomaram um santo nome emprestado,
Para abrirem milhares de gargantas,
E irem para o Céu sem terem pecado.

Os motivos nobres fizeram as pernas correrem
e o gume não ver quem degolou.
Mas quem iria dormir depois de três séculos?
Quem lembrou dos motivos quando a luz se apagou?

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Revolta Armada

Sou a favor do super caso das coisas.

Por exemplo, um cachorro atropelado poderia sair no jornal ao invés de ser apenas jogado na beira da estrada, ou quem sabe os teus primeiros passos serem eternizados na calçada da fama, ou o teu primeiro sorriso ser documentado no Discovery Channel, ou até mesmo tua primeira paixão poderia se tornar um filme sucesso de bilheteria.

O pôr-do-sol que a gente vê todos os dias poderia ser como um horário eleitoral, em que em todos os canais estivesse passando a mesma coisa e fosse quase que obrigatório ser assistido por milhares e milhares de pessoas do mundo todo, com transmissão em tempo real e talvez até a tela dividida em várias telinhas com vários outros pores-do-sol ao redor do globo. Quem sabe isso não faria das pessoas algo mais... sensível?

Eu não acredito que viver vendo TV seja desperdício de tempo, não mesmo, a televisão tem muito o que ensinar, mas acho que existem coisas mais saudáveis que se poderia estar fazendo ao invés de ouvir ideias transmitidas de uma forma que não se deixa transparecer de que lado realmente se está jogando. A televisão ajuda a destruir egos desde 1929, talvez até um pouco depois. E não só a TV, mas as revistas desde que começaram a criar padrões de beleza. Ninguém estava nem aí de ser gordo há 100 anos atrás, pelo contrário, gordura era tido como algo bonito. Mas esse não é o ponto aqui, a questão é a perda de valores, sensibilidade e, principal e lamentavelmente, a perda de metas.

As pessoas aprenderam a palavra mágica 'tudo bem' e descobriram que se acomodar era muito mais fácil que lutar, que perder não é assim tão mau e que o governo tem o poder mal distribuído, mas e daí? Fulaninho foi encontrado queimado e com um cadeado na boca, mas deixa, é briga de gang mesmo! Acho que a TV não seja desperdício de tempo, pela segunda vez, mas acredito que ela serve de alavanca para a banalização dos problemas. Ela mostra todos os dias algo sobre os direitos do cidadão, mas como exercê-los? Na novela, ninguém se opõe ao governo, ninguém luta pelos seus direitos. O que nos falta não é estudo, ou comida, ou saneamento básico. O que nos falta é um motivo para entrar na luta.

Nosso povo já é armado, faça o nosso sangue valer, nos dê algo pelo que lutar.

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"Esse sou eu! Então, quem sou eu realmente? QUEM SOU EU!?!

É meio estranho olhar para mim mesmo desse jeito. Não é assim que eu me vejo, mas pessoas diferentes me vêem de jeitos diferentes... Bem, é assim que eu me pareço! Mas, QUEM SOU EU!?! Eu sou Lasse Gjertsen! Mas, esse é só o meu nome. Tenho 20 anos, da cidade de Larvik e desde que eu sou dessa cidade, algumas pessoas acham que eu falo engraçado. Tanto faz... Mas meu nome não é quem eu sou. Nem minha idade ou de onde eu vim. São meus pensamentos que fazem quem eu sou! As coisas que eu acredito e não acredito, gosto e não gosto... Eu não gosto do trânsito, por exemplo. Eu não sou muito apaixonado por máquinas também. ODEIO ANÚNCIO! Eu gosto de coisas naturais, como amizade e árvores, e... pornografia. Não gosto de carros, cara...

Eu me pergunto o que vai acontecer quando eu morrer. Minha alma vai continuar? Existe uma alma, ou eu vou apenas desaparecer? Eu vou para o Céu, se é que existe? Ou Inferno? Tanto faz...

Eu não curto muito esses tempos em que a gente vive. As pessoas parecem ser sem coração, e estão só pensando em dinheiro! Bem, eu também, talvez... Mas eu tento não ser assim! Eu quero construir uma máquina do tempo, e viajar de volta para os anos 50 ou 70! Isso seria ótimo! Bem, eu acredito que o mundo era a mesma porcaria 30 ou 50, 100 ou 500 anos atrás!

Talvez eu devesse fazer meu melhor para fazer as coisas melhores, agora mesmo! Com animação! Na animação, TUDO é possível! E você cria vida de coisas sem vida, tipo como se você fosse Deus, ou sei lá! Talvez eu possa fazer o mundo melhor com animação? Fazer coisas realmente boas que as pessoas amem, com simbolismo e mensagens dizendo: "Nós temos que ser gentis, ser espertos, e pensar mais no futuro do que no passado!"

Eu estou tão cansado de comida... Estou de saco cheio de dormir, levantar, escovar meus dentes, tomar banho, comer, trabalhar, ir ao banheiro e ir pra cama... Mas a vida é isso! É desse jeito que a gente fez para a gente, mas era assim que a gente queria? É isso que eu quero? Não... Eu gosto de coisas naturais, certo?

Talvez eu devesse apenas deixar para lá e voar para longe, para uma ilha solitária em algum lugar e viver livre na natureza, como era originalmente pra ser! Eu provavelmente não saberia lidar com isso muito bem... Tanto faz... Vamos ver o que acontece. Tudo é possível..."

[Lasse Gjertsen]


(O garoto é um gênio, e eu realmente tô obcecada pelo trabalho dele!)

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Conversa Matinal

Juli diz (08:40):
no fim da minha rua tem praia
Juli diz (08:40):
mas é poluída
Juli diz (08:40):
mas é mor bonito pra olhar
Juli diz (08:40):
tem passarinhos
Juli diz (08:40):
e tem até uns patinhos
Juli diz (08:40):
e tem peixe
Juli diz (08:40):
que pula
Juli diz (08:41):
e de vez em quando tem uns cachorros
Juli diz (08:41):
mas o doido é a cidade
Juli diz (08:41):
que fica bem vazia e tals
Juli diz (08:41):
bem pouco movimento
Juli diz (08:42):
e depois tu chega no mar e ele tá colorido igual ao céu
Juli diz (08:42):
várias vezes meu olho ficou tipo
Juli diz (08:42):
lacrimejandinho saca
Juli diz (08:42):
acho que a gente morar na cidade
Juli diz (08:42):
e toda essa coisa de internet, filme e globalização
Juli diz (08:43):
afasta tanto a gente da natureza
Juli diz (08:43):
que uma merda de um sol nascendo faz a gente parar pra olhar
Juli diz (08:43):
acho loucura quem passa reto quando o céu tá com aquelas cores absurdas da manhã
Juli diz (08:43):
é a única hora que eu paro pra pensar na vida
Juli diz (08:44):
e esqueço de tudo que tem em volta de mim

domingo, 11 de janeiro de 2009

Ponto Final

Acho que é aqui que eu desço. Só com as palavras no estômago, engolidas. As esperanças foram perdidas ao longo da viagem, voaram pela janela. Na mala apenas um monte de planos e desejos que eu fiz questão de deixar no ônibus mesmo.

O orgulho desceu há uns pontos atrás e o otimismo desce comigo, agora. A coragem e a vontade de investir e mudar o jogo se esvaíram no vento que balançava as cortinas da janela, de onde eu era obrigada a assistir tudo o que acontecia aí. E confesso que alguns cortes, de um e outro acidente durante a estrada, ainda estão se fechando.

O balanço do ônibus começou a me enjoar ao invés de ninar. Por isso decidi descer aqui.

Cansei de ser passageira. Joga as chaves, eu que dirijo.

sábado, 10 de janeiro de 2009

Libertando Vaga-lumes


Eu queria poder libertar meus pensamentos e fazer com que eles voassem em todas as direções. Se esmagassem contra os carros e outdoors. Queria ter habilidade para fazer com que fossem vistos, assim as pessoas encarariam de um jeito diferente as minhas ideias sem sentido, ou os meus desenhos. A insanidade seria finalmente descoberta e entendida, pela expressão de ideias comprimidas em alguns centímetros de osso resistente.

Só isso. Isso tudo. É o que me amarra as pálpebras nas sobrancelhas várias noites a fio, tentando achar um jeito de deixar que isso se mostre, que as horas que se passam puxem para fora todos esses vaga-lumes prateados que rondam esse pedaço de tecido nervoso. Minha habilidade para me expressar é tão eficiente quanto tentar mostrar raiva sem sobrancelhas.

Enquanto eu espero o sol nascer, filmes passam incansavelmente e, ao mesmo tempo, meus olhos analisam e processam tudo por trás de lentes de óculos. Talvez numa procura de melhor exprimir sentimentos e ter umas frases legais para uns momentos legais, ou sei lá, quem sabe?

Eu estou tentando, juro. Mas botar isso para fora ia ser tão doloroso quanto ter que vomitar a pizza deliciosa do jantar. Talvez eu fale em pensamento, poderia deixar minha metade extraterrestre se comunicar.

Definitivamente, chega de filmes, Juli. E sei lá o que eu escrevi aí em cima, não ando entendendo direito o que eu digo ultimamente.


domingo, 4 de janeiro de 2009

Um Cordão e Dezesseis Dúzias de Penas

Os dias são espelhos nas últimas semanas: exatamente iguais. Talvez difiram na cor de um carro que passa, ou dois, mas no mais são idênticos. As mesmas pessoas, as mesmas atitudes. Até os diálogos são iguais. Vazios e robóticos.

Meus sonhos começaram a refletir a realidade. Mesmo dormindo, sonho que estou presa, mas fugindo. Talvez por dentro eu seja bem mais rápida e forte do que eu aparento ser. Queria minha atitude inconsciente 24 horas por dia, porque, ultimamente, as mensagens processadas enquanto eu durmo são mais racionais que as pensantes, com os olhos abertos, ainda que distantes.

Eu sou um passarinho em uma gaiola, mãe, abre a porta pra mim, vai.