sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Fantasia

Minhas palavras levam mais do que apenas vogais e consoantes.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Pássaros

O fim do ano chega voando, não docemente como as andorinhas que começam a enfileirar-se nos fios dos postes anunciando verão, mas como uma ventania entre as ruas da cidade - talvez até a mesma que me fez perder os óculos.

E eu me sinto completamente impotente ao ver meu castelo ser constantemente golpeado, reduzido a mais um monte de areia, se igualando ao resto da praia e que, em uma onda ou outra, vai voltar a ser o que era e passar despercebido.

Acho que é medo, medo de perder o que eu conheço, de correr em algum caminho novo. Medo de soltar as mãos, de tirar as rodinhas da bicicleta. Medo de ver que é tudo muito maior que o meu umbigo e de perceber que talvez eu pudesse ver além se não estivesse tão preocupada procurando meus óculos.


E os pássaros, eles são milhares e sabem se alinhar, se ajeitar, formar uma organização perfeita sem traços, sem mapas, sem apoio para se guiar e sempre chegam exatamente onde querem, onde deveriam. Instinto.

Eles não cantam.

Eu realmente deveria fazer o mesmo. Só me dê o tempo de as asas crescerem, e eu prometo que as coisas vão se encaixar.

Eles não cantam mais. Não por falta de voz, mas por falta de motivação.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

0.5 0.5

Pare de mexer as folhas que eu estou tentando ler. A caligrafia não é muito legível, sem óculos principalmente.

Não me lembro de muita coisa, só lembro de ter os perdido em algum lugar entre aqueles dois prédios que, de onde eu estava, pareciam do tamanho do mundo, engoliam tudo em volta como um par de furacões devastando a cidade.

Os papéis voavam.

Eu tentava ler, ainda.

Já mencionei que perdi meus óculos?

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Abre-te Caixa!

É incrível como se a gente revira tudo, encontra coisas que eram tão valiosas, e que hoje em dia não têm mais tanto valor. Ou aquelas que foram jogadas em uma caixa por descaso e hoje têm uma importância imensa.

Vasculhei minhas velharias hoje. Achei coisas que não via desde que eu tinha 6. As cartas, os brinquedos, os papéizinhos trocados... Quantas dessas pessoas já sumiram daqui? Quantas eu nunca mais nem vou saber sobre, mas que naquele momento, irrelevante nestes dias, significaram tanto? Tanto que sumiu.

Ainda posso te mandar duas cartas. Os anos passam e como mágica, as caixas se enchem de lembranças. Dentro da cabeça, dentro do armário.

O fim do texto foi removido, na verdade faltam palavras, como em alguns papéis rasgados que encontrei. Quem sabe seja bem melhor que não saibas a resposta exata para 'tudo bem por aí?'.

(Vou fazer falta, assim como tu me fazes nesta tarde nublada de Outubro).

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

terça-feira, 14 de outubro de 2008

"I know the truth:

There's no going back.

You've changed things ... forever.

See, to them, you're just a freak."

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Beco

O cheiro é extremamente forte, antes deixasse apodrecer por si só. A inútil tentativa de queimar os restos mortais daquilo que um dia foi bonito só acelerou e aproximou as sirenes de luzes piscantes.

O tempo para pensar é curtíssimo, mas parece uma eternidade até que a errante idéia de juntar o que sobrou do corpo chamuscado dentro de um saco de lixo apareça. O nojo é quase inexistente e a frieza é o que mais me chama atenção nesta visão triturante.

As pernas não respondem à necessidade excessiva de correr. Os pulmões não conseguem acompanhar o ritmo do coração, que bate acelerado. Os olhos marejados não são dissimulados, pela primeira vez em anos. O arrependimento derruba o frágil corpo que é constantemente perturbado por um cérebro mais perturbado ainda.

Talvez fosse melhor não ter tentado esconder os grandes pedaços de carvão orgânico. Não consegues perceber que foi só um adiamento?

Ouve, as sirenes se aproximam.