domingo, 17 de agosto de 2008

Loucura

"Saudações. Fico feliz de ver que você conseguiu. Sei que a citação foi abrupta e algo fora do comum, mas eu tenho medo de que isso simplesmente esteja na minha natureza. Relaxe. Eu aprecio que voê não me conheça, ainda. Que coisa interessante essa. Se você me conhecesse, não saberia que me conhecia. Faz sua cabeça girar, não é mesmo? Pouquíssimas pessoas querem me conhecer, menos ainda realmente me entendem. Mas você é diferente, não é?

Ah, como eu amo os diferentes. Tenho visto tanta gente, entende, ao longo dos anos. Os que abertamente apreciam a minha companhia, até mesmo o meu abraço. Mas mesmo muito poucos daqueles procuram compreender-me realmente. Você realmente quer me conhecer? Receio que a conversa, independentemente da sua profundidade ou complexidade, não será suficiente. Não, temos que olhar mais. A melhor maneira de entender-me, creio eu, é testemunhar aqueles que já me conhecem, em uma faceta ou em outra. Para isso, deixe-nos ir e ver algumas dessas almas sortudas. Vamos ver o que o meu abraço tem forjado.

Relaxe, não há necessidade de se mexer. Nós podemos viajar de outras formas que não a crua carne do seu corpo. Feche os olhos e pegue minha mão. Vou guiar você, como eu tenho guiado tantos outros.

Vamos começar com um homem que acabou de me conhecer. Vamos chamá-lo de John. Você pode ver? Ali, logo à frente, é a casa dele. Uma casa pré-moldada de tijolos à vista, hipotecada duas vezes. Uma bela casa, seria uma opinião e, na verdade ela é, por si só. Vamos olhar através da janela do lar de John, não vamos? Lá. Lá está ele. John é um branco pré-moldado trinta-e-alguma-coisa na classe média dos subúrbios da América. Ele tem uma esposa e três criancinhas, quais os nomes são irrelevantes. John é a única fonte de renda da casa, sua mulher sempre quis ser uma mãe dedicada 24h e dona de casa, e ele sempre querendo fazer sua esposa feliz. Veja só, John tem um certo tipo de personalidade, do que se presta à minha presença. Ele deve agradar. As causas são muitas, tenho certeza, e como os nomes de sua família, irrelevantes. Essa necessidade de agradar vai além do normal. Ele precisa agradar todos, independentemente das suas próprias necessidades. John está endividado muito além de seus recursos. Como eu já mencionei, a casa foi hipotecada duas vezes. Ele também tem várias linhas de crédito abertas, todas estão no limite (algumas estão fora). John tem um emprego estável que paga bem, mas ultimamente ele tem sido sufocado. Vê? John despreza seu trabalho. De fato, ele preferiria tomar uma surra todos os dias do que carregar-se até seu escritório. Mas, desde que não aceitam cheque naquela linha de trabalho, e desde que John deve fornecer e agradar, John segue em frente. John está na negação. Esta é uma porta que eu tenho batido algumas vezes. Assista-o. Sentado em sua mesa, puncionando números no seu computador, desenhando figuras em uma cada vez mais instável mão, tentando descobrir como manter sua fantasia a tona. Olhe mais perto. Vê a minúscula lágrima na sua bochecha direita? Ele e eu estamos prestes a nos conhecer, embora como de costume John está contentemente desatento.

Chega de John. Ele e eu nos conheceremos bem em breve. De fato, eu suspeito que nós vamos ser amigos rápido, mais para a sua família sem nome. Tal é o estigma que eu suporto. Deixe a casa pré-moldada hipotecada de John sumir no nevoeiro da obscuridade, temos mais para visitar. Para onde devemos ir agora? Ah... Vamos visitar Ronnie. Você ouve o som das ruas? As buzinas? Os motores? Lá, enquanto o nevoeiro sobe, nós vemos uma calçada suja, à beira de uma rua movimentada em alguma metrópole americana lotada. Olhando a esquina de um prédio de tijolos, nós ouvimos um rangido de rodas antes de Ronnie virar com seu carrinho de compras detonado apenas metade-cheio com os detritos das tão chamadas pessoas 'normais' nessa tarde.
Como sempre, Ronnie etá suja, não tanto como John. Ela é jovem/velha, alguma idade entre vinte e sessenta, impossível saber pelas camadas de sujeira e as linhas de tensão e do tempo. Ronnie usa seu uniforme costumeiro hoje, o vestido marrom que a simpática senhora de Salvation Army deu à ela há dois (ou seriam três?) Natais atrás. A bandana azul que ela encontrou no lixo atrás do bar do Doc Henry no mês passado, prendendo seu cabelo no lugar contra o vento. Os vários pedaços de tralha, suja mas ainda bonita fantasia, jóia que ela encontrou através dos anos. Ronnie está descalça como sempre, apesar de a calçada provavelmente estar dando bolhas neste calor. Observe sua face mais de perto enquanto ela empurra seu carrinho por nós, apática à nossa celestial presença. Você pode ver a beleza que ainda existe sem ser notada ali? Ronnie sabe que ela está lá, a maioria do tempo. Veja ela. Está falando, embora esteja sozinha na rua. Com quem, eu pergunto? Comigo? De vez em quando, mas eu particularmente acho que Ronnie está falando com Ronnie. Essa Ronnie que vemos está falando com a Ronnie que costumava ser. A adorável garotinha sardenta que cresceu na parte rural de Oklahoma. A garota que o papai brincava com e a mamãe lia para. Ela era a vida deles, e eles eram o mundo dela. Até o fogo. O belo terrível fogo. Às vezes é a tragédia que abre os caminhos para mim. Eu tenho feito muitos amigos através da calamidade. E acredite em mim quando eu digo que Ronnie e eu somos amigos. Ela gosta da minha companhia, mesmo sem saber que eu estou lá. Nós somos inseparáveis agora, Ronnie e eu. Nos abraçaremos até o dia de sua morte, e ela não o iria querer diferente se pudesse.

Bom, chega de sentimento. Ronnie está comigo, mas ela está tão feliz quanto ela pode. Vamos olhar alguém totalmente diferente. Limpe a cena da rua e deixe Ronnie com sua conversa solitária e em baixo som. Vamos depressa para outro lugar, a mansão apalaçada, assim como a que Ronnie criou de papelão, é humilde. Aqui, na briza morna da Flórida, se ergue uma mansão branca com um telhado de telhas vermelhas, cercada por uma parede de estuque e um portão de ferro. Carros caros se alinham na estrada de lajotas. Mais fundo dentro da opulenta construção está uma sala, cercada e cheia com bancos, com um palco instituído na frente deles. Os bancos são estofados com muito bom gosto e ocupados por homens e mulheres de recursos, suas roupas, seus acessórios, seu jeito bem ensaiado de falar de riqueza. Todos estes estão sentados de frente para o palco em que outro homem, o foco da nossa jornada aqui, atravessa de um lado para outro, orando energéticamente e com habilidade. Seu nome é irrelevante. Ele é irrelevante, embora acredite realmente no contrário. Veja só, ele é um anjo de Deus. Você ri? Pergunte a ele, eu imploro. Ele discursará longamente sobre a sua filiação e seus planos para o mundo. Eu e ele somos velhos amigos, como você já deve ter adivinhado. Na verdade, ele me conheceu intimamente antes de conhecer sua primeira mulher. E ele tem conhecido vários. Veja só, embora nós sejamos íntimos, ele é um homem muito carismático, prático na arte da manipulação,
tendo aperfeiçoado sua habilidade ao longo dos anos vagueando em tendas de 'renascimento' durante toda sua infância. A maioria dessas pessoas aqui esta noite acreditam no que ele acredita, e a minoria que não, está começando a acreditar. Tal é o poder desse homem. E tal é o relacionamento entre eu e ele, que ele nem sequer vê o dilema moral em pegar dinheiro dessas pessoas para apoiar o seu "ministério" e utilizá-lo para comprar vagabundas que ele então assassina no porão dessa tão santificada morada. Realmente, se perguntado, ele diria que ele as abençoou e as colocou no caminho para o Criador. Outro amigo de vida longa esse, embora eu duvide que ele viva tanto quanto a querida Ronnie.

Como pode ver, eu tenho muitas faces. Evidentemente, eu estou me esforçando com John, mas ele não pode ser salvo ainda. Eu sou boa com Ronnie, e eu capacito o homem irrelevante na Flórida. Vamos ver um lado mais negro. Um flash para uma sala escura, uma cozinha pelo cheiro de fritura e pela mesa de fórmica. Um homem senta numa cadeira nessa mesa, de cabeça baixa, segurando cuidadosamente alguma coisa em seu colo. Ele está suando, o calor no quarto é opressivo. Vemos imediatamente que alguma coisa está muito errada. Ele está com uma camiseta que uma vez foi branca, mas que agora está coberta de vermelho, parte ainda está molhado e ligeiramente preto. Um denso fluído carmesim escorre pelos seus braços até seu colo, que não pode ser visto. Este é Mike. Ele não é tão quieto quanto nós pensamos. Seu ato estúpido volta enquanto ele soluça de tanto chorar, e algumas das gotas que pensamos ser suor são lágrimas. Deixando Mike com seu luto, nós deslizamos até o hall, talvez para encontrar a origem das manchas da camiseta de Mike. Você quer saber, admita. Escorregando através de uma quase-porta fechada para um pequeno e pouco iluminado quarto, a origem das manchas e do luto de Mike é aparente. Uma está mulher deitada em uma cama de casal, seus grandes olhos fixados no teto, em uma congelada discrença. Ela foi esviscerada, seu sangue vivo e suas entranhas foram espalhados pelo quarto como se fossem confete. Sabendo agora a causa do luto de Mike, voamos rapidamente de volta para a cozinha e seu calor infernal para observar mais uma vez, nossa compreensão maior do que antes. Mike ainda está sentado à mesa, mas sua cabeça está levantada, seus olhos abertos e fixos a frente. Sangue está respingado pelo seu rosto, vazando de um olho como uma lágrima carmesim. Na mesa diante dele está um cutelo, um pedaço barato de metal de terceira e um plástico ainda mais vagabundo. O sangue faz uma poça embaixo dele. As mãos de Mike descançam sobre a mesa e sua mandíbula começa a trabalhar. Ele já não está mais soluçando, ou demostrando remorso de forma alguma. Ele está dizendo alguma coisa. Escute mais de perto. Nós escorregamos vagarosamente mais perto até que podemos entender a única palavra que Mike está repetindo. "Por que?" Por que o que, você pergunta? Eu sei. Eu estou dentro de Mike agora, e eu conheço ele melhor do que ele mesmo. Mike está perguntando por que. Por que ele perdeu seu emprego hoje? Por que seu carro quebrou? Por que ele perdeu o ônibus? Por que Cindy decidiu que ele não era o suficiente para ela? Por que ele a esviscerou em um momento cego de raiva e espalhou seus pedaços pelo quarto deles? Por que? Estou o fazendo fazer essas perguntas? Não. Na verdade, estou permitindo que ele as faça. Mike está totalmente sobre meu controle agora, e às vezes eu aprecio esse controle. Às vezes eu aprecio machucar pessoas. Eu tenho muitas faces, como eu disse. Eu vou atormentar Mike por mais alguns minutos, então eu vou fazê-lo se machucar. Se eu for piedosa (eu posso ser, como você já viu), eu vou fazer Mike cometer suicídio. Acredite em mim, suicídio é a resposta mais piedosa a estas alturas. Se não, eu vou deixá-lo inteiro, embora o fazendo seria, provavelmente, me convidar de volta, em uma das minhas outras formas. Irônico, não?

Então, querido andarilho. Você realmente quer me conhecer? Você me entende? Não, eu acho que não. Você viu alguns de mim. John, Ronnie, Mike e o homem irrelevante na Flórida, eles me conhecem. Acredite em mim quando eu digo que você não quer me conhecer. Você não quer me entender, me abraçar, me amar, me cortejar, ou até mesmo ser meu amigo. Mas vai chegar o dia na sua vida em que isso vai mudar. Ninguém sabe o que o amanhã vai trazer. Não tenha medo, querido amigo. Eu tenho muitos olhos grandes. Se esse dia chegar, eu vou estar lá."

[Um tal de ~DaddyForever]

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