segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

57

Hoje, desde que acordei, sempre que olhei no relógio, os minutos marcavam o número 57. 12:57, 13:57, 14:57, 16:57, 20:57. Resolvi por fim, olhar a página 57 de alguns livros que tenho e, dentre as diversas páginas, uma que mais chamou-me a atenção foi esta:

"Os destroços do imenso BMW - grande e vermelho como um inseto no cio - eram uma proposta inovadora fatalmente destinada a acabar no Guggenheim de Bilbao sob algum título sugestivo: "O ocaso dos deuses" ou "A mãe que pariu Newton". Caramba, morre-se por menos que isso. Eu estava prestes a dar meia-volta, uma vez que havia almas caridosas em número mais que suficiente para socorrer o ferido, quando, por uma brecha no círculo de curiosos, consegui ver melhor a cara dele: Gerardo Berrocal, sexta série C, Colégio Marista: o Berri, de cabelos brancos e sem óculos, mas não havia dúvida: era, definitivamente, o Berri.

Porra.

Estive a ponto de atravessar a barreira de pessoas e cumprimentar: "Berri, há quanto tempo... Chamo uma ambulância para você?...". Contive-me, mas, desde o começo, essa coincidência tinha mudado radicalmente minha posição quanto ao acontecimento. A ambulância já tinha sido chamada por alguém com um celular e decidi ficar por ali até que ela chegasse. Antes, no entanto, apareceram Leôncio León e Tristón, alcunha pela qual é conhecida a dupla de guardas urbanos que pára no bar do Luigi para reabastecimento. A ambulância chegou alguns minutos depois: saltaram dois sujeitos de branco, abriram a porta de trás e aproximaram-se para observar o Berri; em seguida, puseram uma maca do lado dele e, antes de o moverem, enfiaram-lhe um colarinho rígido para o caso de ter o pescoço partido. Quando fecharam a porta da ambulância, levantei sem querer o polegar e deixei escapar um "força, Berri", que, felizmente, não foi ouvido por ninguém.

Francamente abatido, retomei o caminho até o bar do Luigi.
- Roberto, traz a garrafa de vodca do congelador.
Roberto murmurou:
- Tá começando forte, compadre...
- Acabei de ver um colega de colégio estatelar-se contra o caminhão de lixo.
- O acidente? Vieram chamar o Leôncio e o Tristón. Foi grave?
- Acho que não... Mas hoje o dia foi duro e isso me deixou abalado. Traz a garrafa, anda.

Foi buscá-la na cozinha, mas, no meio do caminho, o celular começou a tocar e ele parou para atender à chamada. O bar estava disputado, já tinham desmontado as mesas de fora mas, dentro, ainda havia gente (...)"

["O Melhor Que Pode Acontecer A Um Croissant" (Pablo Tusset) - Página 57]


Não sei bem o que isso pode acrescentar-me, mas enfim, o li de bom gosto, se for algum sinal, por parte não foi ignorado.

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